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Histórias das Letras e das Músicas

Disfarce: A história da canção

Por Alexandre Rogatto

Tudo começou com a canção…

 

Prefácio

“Disfarce” é o nome de uma das novas músicas do “Verso”. Ela é parte de nosso novo trabalho. Foi “pensada” para ser simples e direta, tanto em termos de linguagem quanto em termos melódicos. Foi uma das músicas que fiz quando achei que era hora de dar uma variada e parar de fazer letras “difíceis” como “Criação e Fim” ou “O 47o Problema de Euclides”.

Ocorre que, verdade seja dita, apesar de haver muita gente que gosta das nossas canções, não temos (e provavelmente nunca teremos) um status de banda pela qual exista uma legião de seguidores tentando encontrar mensagens subliminares em nossos textos 🙂 .

Há gente na nossa banda que é contrária a este negócio de querer explicar as músicas através de imagens, vídeos ou explicações puras e simples, como as que existem aqui no site na “page” “Histórias das Letras e das Músicas”, mas eu acho que isso faz parte do “pacote de diversão”.

Bom… Voltando a “Disfarce”… Sua letra foi feita para contar uma historinha, mas assim que a apresentei para a banda, a primeira pergunta que um dos integrantes fez, foi:  “Alexandre, você fez esta música pensando em alguém?”.

É pra responder à pergunta dele e, eventualmente, de outras pessoas, que criei esta história: A história por trás de “Disfarce”.

Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência… ou não.

Espero que gostem!

 

 

Introdução?

Viu a foto da garota. Gostou.

– Não falei que era gata? Além de mais bonita, ela é bem mais legal que essa chata que você namorava.

A sinceridade cortante da amiga pegou-o de surpresa. Ela já conhecia sua ex havia meses e sempre lhe pareceu que ambas tinham grande afinidade. Conversavam e riam pra valer nos encontros eventuais que tiveram. “Como essa mulherada é falsa!” – pensou.

– “Tá” bom! Você me convenceu! Dá o telefone da sua prima. É Mari que ela chama, né?

– Sim. “Mari”, de Mariana.

Mariana… Ele “adorava” esse nome.

– Ok! Vou ligar e ver se ela está mesmo a fim de sair comigo.

– Claro que ela está. Sempre falo bem de você pra ela, mas ela estava namorando e você também. Agora ambos estão livres e tudo conspira a favor. Sempre achei que combinavam… Já viu aquele programa… Are You the One?

Respondeu que “não”, mas “sim”, já tinha visto. Só não quis parecer rude e responder que tinha assistido e achado o programa meio besta.

Pegou o papelzinho com o nome e número da garota. Esperou a hora do almoço, momento em que o escritório esvaziava, e ligou.

– Mari, tudo bem? É Vinícius, amigo da Rose…

 

 

Do outro lado da linha

6:15h. Hora de acordar. Como acordar se mal dormira?

Saiu da cama e caminhou lentamente até o pequeno banheiro do apartamento onde morava e lá, como vinha fazendo nos últimos dias, confrontou-se no espelho. Enormes olheiras insistiam em tornar imperfeito o que sempre fora perfeito.

Desde sempre Mariana ouvia comentários elogiosos sobre sua beleza. Seja pela cor e formato dos olhos, pelos cabelos avolumados, pelo corpão-violão. Conforme crescia, ia acostumando-se com a inveja de algumas meninas e com o constante assédio de muitos meninos.

Apesar das inúmeras opções de escolha que sua beleza singular proporcionava, Mariana gostava mesmo é do Renato, o “pegador” da turma; famoso, também, por ser o único que já dirigia o carro do pai mesmo sem ter completado 18 anos, por ser o vencedor constante daqueles concursos que elegem o “Casal da Festa” baseado no número de rifas vendidas e, não menos importante, por ser sempre o artilheiro no campeonato interno de handball.

Ao contrário das amigas “não-tão-bonitas-assim”, Mariana não começou a namorar cedo. De nada adiantavam as constantes intervenções da Rose, sua prima e confidente, sobre os perigos de se “apaixonar por um cara galinha” e “a importância de estar aberta para outras possibilidades”.

Demorou um pouco, mas o que todos imaginavam que aconteceria, de fato aconteceu. Num bailinho na casa da Sofia, uma das colegas de sala, Renato aproximou-se de Mariana. Adiantou-se em deixar claro que a fase de “ficar” cada hora com uma menina tinha ficado pra trás, que tinha amadurecido, que Mariana sempre fora a garota de seus sonhos e blá-blá-blá. Dalí, engataram um beijo e, após alguns dias, assumiram que estavam namorando.

Os três meses que se seguiram pareciam a realização de um sonho para a apaixonada Mariana, até a fatídica tarde em que Sofia, uma amiga em comum, entrou esbaforida na loja do Shopping em que ela trabalhava:

– Mari… Preciso te falar uma coisa, mas você tem que jurar que não vai dizer pra ninguém que fui eu quem te contou.

No entanto, antes mesmo de Mariana sinalizar ou não uma concordância, Sofia já emendou a frase:

– Acabei de ver o Renato beijando uma menina lá na Starbucks.

Após a constatação do fato e a sincera frase de Renato: “eu-estava-me-sentindo-preso-com-você”, passaram-se os quinze dias mais longos da vida de Mariana, em que quase não comia e nem dormia, dando brecha para o surgimento das olheiras mencionadas no início desta parte da história.

Hoje, no entanto, mais especificamente próximo ao meio-dia, quando Mariana se preparava para abocanhar o lanche natural que levara de casa para lhe servir de almoço, reverberaram no ambiente os acordes iniciais de “Don’t fade away”, canção do Whitesnake que ela usava como “toque” do celular:

– Alô?

– Mari, tudo bem? É Vinícius, amigo da Rose…

 

 

 

 

 

Tem novidade na área

Alguns psicólogos dizem que vivemos tempos sombrios. Nunca tantos jovens estiveram envolvidos em processos depressivos. Nunca tantos jovens sentiram-se isolados, solitários. Em muitos casos não tratados, dizem os especialistas, “o sentimento de solidão leva o indivíduo a doenças ou processos sintomáticos”.

Entre as inúmeras causas de desencadeamento deste processo de auto depreciação está o fato de o jovem sentir-se “diferente” da maioria, excluído; por ser feio, gordo, magro, pobre, negro, desajeitado, espinhento, nerd etc.

Uma jovem, no entanto, passa longe desta “triste estatística moderna”. Dona de uma simpatia que encanta todos ao seu redor, Rose nunca sentiu-se excluída por ter um corpo, digamos, mais “cheinho”.

É fato que a primeira vez que um coleguinha ousou chamá-la de “gorda”, ainda no primeiro ano do antigo “primário”, tratou de espancá-lo com sopapos e rodopios de lancheira, numa época em que nem se usava ainda o termo “bullying”.

Com o tempo, porém, passou a perceber que nem era necessário o uso da “força” para se impor. Bastava seu carisma natural para cativar a todos que a cercavam.

Rose sempre foi alvo de cantadas e pedidos de namoro. Começou vários relacionamentos mas, conforme ficavam mais sérios, ela colocava um ponto final neles; por razões que o autor do texto irá esmiuçar no futuro.

Ultimamente a Rose, costumeiramente alegre e motivada em tudo o que fazia, andava meio empanzinada da rotina na empresa em que trabalhava.

– Não aguento mais olhar sempre as mesmas pessoas todos os dias – revelou de rompante à Lívia, a vizinha de mesa na empresa em que trabalhava. Nada contra você, amiga, mas esse escritório está precisando de algo novo – esclareceu.

Lívia, uma garota ruiva de sorriso fácil e conhecida por estar à par de tudo que acontecia no escritório antes de todo mundo, viu na frase da colega a oportunidade para lhe revelar o que ficara sabendo pela manhã, enquanto tomava um café na Copa e ouvia “sem querer” a conversa do “Seu” Aurélio com a Vanda, a “velhota” do RH.

– Quer uma novidade? – instigou Lívia. Parece que hoje é o primeiro dia do rapaz que entrou na vaga do Claudio.

Neste exato momento, Rose levantou a cabeça por sobre o monitor e viu o “Seu” Aurélio acessar o andar, vindo do hall de elevadores. A seu lado, com semblante tímido, mas confiante, estava o novo colega de trabalho, avaliado de cima a baixo pela ala feminina do andar.

– Caraca! Que gato! Se eu estava precisando de motivação pra vir trabalhar com as novas calças skinny que comprei, agora não preciso mais – proferiu Rose para quem quisesse ouvir.

Lívia murmurou um “assanhada” direcionado à amiga, enquanto ajeitava o cabelo e conferia a maquiagem no espelhinho estrategicamente posicionado em sua mesa.

– Rose! Lívia! Bom dia! – disse “Seu” Aurélio, gerente da área, com sua voz costumeiramente gutural. Esse é o Vinícius. Está começando hoje na empresa.

 

  

 

  

 

O mundo de Sofia

Ainda guarda numa das gavetas de seu armário vários álbuns com coleções de stickers, envelopes e papéis de carta. Impressos neles estão corações, ursinhos, flores, meninas com vestidinhos de camponesa de mãozinhas dadas com meninos com roupinhas de camponês. Um verdadeiro universo materializado da menina romântica que sempre foi e ainda hoje insiste em cultivar, mesmo ciente do desuso desta “prática” em tempos de empoderamento feminino e valorização de heroínas invencíveis mas, sobretudo, mesmo diante das decepções amorosas que já viveu.

Atrás da porta do quarto, ainda estão coladas frases de amor e fotos de galãs de cinema e TV de sua geração recortadas de revistas. Lá está também, já um tanto amarelada, a cartinha de amor que recebera de seu primeiro paquerinha da escola. Colada ao lado está sua foto de mãos dadas com o autor da cartinha no inesquecível dia em que ambos foram eleitos o “Casal da Festa Junina”, quando estavam na quinta série.

Anos mais tarde, quando a ideia do primeiro beijo começou a fazer parte de deu dia-a-dia de forma mais intensa, uma vez que isso já havia se materializado para algumas das amigas, tudo que ela queria é que acontecesse com ele. Seu primeiro e único amor.

Fernanda, sua BFF*, que conhecia sua intimidade e desejos mais que sua própria mãe, tratou de atacar de cupido para tentar realizar o sonho da amiga.

No intervalo entre aulas, Fernanda esperou que o colega de classe saísse do banheiro, postou-se diante dele e convocou:

– Renato, no último sábado deste mês vai ser minha festa de 15 anos, tá?

– Ok, e daí?

– Como e daí? Daí que você vai compor um dos casais da festa, tá?

– Tá bom, mas você sabe que eu “tô de rolinho” com a Débora, né? Você vai convidar a Débora? Eu sei que você não gosta dela…

– Nem ferrando. Não vou convidar aquela tonta pra minha mega festa. Você vai formar par com a menina que eu escolhi, porque a festa é minha, tá?

– Mas…

– Não tem “mas”. Você sabe muito bem que a minha mãe conhece a sua desde quando elas eram crianças. Se eu falar pra minha mãe que você fez desfeita comigo num momento tão importante da minha vida, ela vai ligar pra sua mãe na mesma hora, tá?

– Ok…  Ok… e quem vai ser meu par, cacete!

– “Tá” tudo aí no convite… o endereço do buffet, os nomes das lojas com as listas de presentes, o endereço do lugar pra alugar sua roupa e os nomes dos 15 pares, tá?

Renato já sem paciência com a amiga e seu costumeiro uso de “tás” no final das frases, apressou-se em abrir o envelope lacrado. Não foi surpresa quando, ao abri-lo, encontrou, logo na primeira linha da lista de casais, os nomes: Renato e Sofia.

 

*Best Friend Forever = Melhores amigas ara sempre 🙂

  

 

 

Ainda amo Cecília?

Entrou no carro da namorada. Ela tinha marcado um encontro com alguns casais amigos num bar da moda. Ele odiava esse tipo de programa, mas concordou em ir porque tinha um inexplicável sentimento de que estava sempre em dívida com ela.

Após um rápido beijo, afivelou o cinto e deixou seu pensamento em modo livre.

É claro que ele ainda amava Cecília. Como poderia não amar?

Cecília era sua primeira namorada. Ambos ainda eram bem jovens quando se conheceram, o que lhes deu oportunidade de descobrirem muitas coisas juntos.

Algo, no entanto, o estava deixando aflito. Tinha consciência de que, por serem muito jovens, teriam ainda que percorrer vários caminhos; mas, ultimamente, muitas coisas que ele vivenciava, ouvia, lia, descobria, já não tinha mais o mesmo entusiasmo em compartilhar com Cecília. Além disso, às vezes tinha a impressão que Cecília era meio superficial, um tanto materialista, pragmática e, por vezes, insensível.

Será que as dúvidas sobre o sucesso daquele relacionamento também estavam pipocando na cabeça da namorada?

A referência dele no quesito “relacionamento de casal” eram seus pais, e estes não pareciam ter lá muitas coisas em comum, além da rotina de discutir sobre a educação do único filho, reclamações sobre os gastos do dia-a-dia e raras noites de sexo, que ele identificava facilmente, já que sua mãe era um tanto… ruidosa, pra dizer o mínimo.

Nos finais de semana seu pai gostava, mesmo, era de sair pra pescar com os amigos dos tempos de colégio; enquanto a mãe ligava para as vizinhas de sempre e marcava jogatinas de tranca que, invariavelmente, varavam a noite.

Assim, para ele, um casal não necessariamente tinha que ter muitas afinidades e gostos em comum.

Mas a verdade é que, de fato, só começou a se perguntar se ainda amava Cecília, na época em que começou a trabalhar na nova empresa e conheceu a Rose.

Quando conversava com a Rose ele, realmente, “se abria”. Com ela, podia falar sobre todas as coisas que lhe vinham à cabeça; desde bandas de rock que estava descobrindo, filmes alternativos que assistira, política, viagens filosóficas e, até mesmo, assuntos familiares e intimidades pessoais.

Rose era pura atenção enquanto ele falava. Não era, no entanto, apenas uma boa ouvinte; ela tinha, também, opiniões sobre tudo. Não eram simples pontos de vista. Eram opiniões bem construídas, convincentes. Rose tinha conteúdo e gerava uma empatia que ele não vivenciava com nenhuma outra mulher com quem convivia.

O problema é que, se por um lado ele não tinha mais certeza se amava Cecília, tampouco sabia se o que sentia por Rose era amor.

Rose era maravilhosa, uma companhia mais do que agradável a qualquer hora, mas não tinha o apelo sexual que ele, até então, considerava essencial para manter um relacionamento a dois. Ele tinha percebido isso algumas semanas atrás, numa festa patrocinada pela empresa em que ambos trabalhavam.

E agora? Que rumo tomar?

Perdido em dúvidas e possibilidades, seu pensamento voltou à realidade quando sentiu um apertão no braço e ouviu a voz enraivecida de Cecília:

– Acorda Vinícius, “tá” dormindo? Já chegamos!

 

 

 

  

Debutando

Ser o par do Renato na “Festa Junina” da escola era o sonho de 9 entre 10 meninas. Ele era o garoto mais popular, além de considerado o mais bonito. Não bastasse isso, era também o mais rico. Era sempre o primeiro a aparecer na escola com novidades tecnológicas e o único que viajava com os pais para o exterior duas vezes ao ano.

Naquele ano Sofia colocou na cabeça que sua hora chegara. Tratou de pegar o maior número possível de talõezinhos de rifa. Não apenas convocou a família toda: pais, tios, avós e primos para cooperarem, como decidiu sair às ruas dos bairros vizinhos e apertar a campainha das casas oferecendo os talões.

O esforço e a estratégia funcionaram e, naquele inesquecível ano, foi dela o privilégio de fazer a dança final da quadrilha com o cobiçado garotinho.

Renato, na semana seguinte à festinha, escrevera numa cartinha, com letrinhas de estudante recém alfabetizado, que havia “adorado dançar com uma menina tão bonita e legal”.

O primeiro amor parecia ter batido à porta de Sofia, mas nos dias, meses e anos que se seguiram, Renato parecia ignorar a “companheirinha” da dança caipira.

As crianças viraram jovens. Renato continuava deitado sobre sua fama, acentuada pelo corpo malhado que adquirira, para delírio das jovenzinhas. Trocava de namoradinhas como trocava de camiseta, mas Sofia estava entre as poucas garotas que nunca fizera parte de sua lista de objetivos amorosos.

Quando a amiga Fernanda convidou-a para sua festa de debutante e contou-lhe sobre seu plano de formar um par entre ela e Renato, as esperanças de Sofia se renovaram.

O sonho do baile, no entanto, virou pesadelo já que, além de estar levemente alcoolizado na hora da valsa, Renato deixou Sofia sozinha no meio do salão poucos segundos depois do final da dança. Tinha combinado com a Débora, sua namorada na ocasião, que deixaria a festa tão logo cumprisse os “protocolos”.

Dessa vez não houve nem foto de mãozinha dada, nem cartinha na semana seguinte.

A frustração gigantesca, porém, não foi suficiente para que Sofia deixasse de nutrir esperança de que um dia Renato voltaria sua atenção para ela. Imaginava que esta fase “galinha” era algo natural, mas temporário e que, no momento em que ele decidisse por escolher uma garota “em definitivo”, seria ela a escolhida por ser uma menina de família, inteligente, estudiosa, enfim… “uma menina pra casar”, como costumava ouvir dos pais.

 

 

 

 

Depois a gente conversa

Nunca achou Cecília especialmente bela, mas encantou-se por ela na primeira vez que a viu. Algo meio sem explicação. Se não tinha explicação, talvez pudesse ser amor, certo?

O tempo foi passando e Vinícius foi achando Cecília cada vez mais “comum”. Naquela noite, no entanto, Cecília estava linda. Tinha ido ao cabeleireiro pra fazer um penteado modernoso. Usava uma maquiagem que realçava seus bonitos olhos levemente puxados. Seu vestido justo e um tanto decotado deixava em evidência seu belo colo.

Tanto “capricho” no look tinha um motivo. Iam a um evento da empresa em que Vinicius trabalhava e Cecília sabia que todas as “perversas” do escritório dele estariam presentes. Motivação para ficar deslumbrante, portanto, não faltava.

Das moças do “trabalho do Vinícius”, Cecília só não tinha ciúmes da Rose, “uma simpatia”, dizia; “é a única lá que parece gostar de mim”, enfatizava; “se bem que usa roupas muito justas pra quem tem uma bunda daquele tamanho”.

No local do evento comemorativo, um antigo galpão de fábrica transformado em salão de festas, tudo corria de modo agradável. Banda boa tocando música da melhor qualidade, muita gente dançando e conversas fluindo, talvez mais animadas que o normal em função da grande oferta de drinks coloridos feitos por quatro barmen contratados para a festa.

Num dado instante da noite, Vinícius percebeu-se observando Rose. Sua boca, seu sorriso, suas caretas enquanto falava, suas imitações engraçadas do pessoal do escritório. Felizmente Cecília não percebera o quanto Vinícius parecia hipnotizado por Rose, já que ela direcionara sua atenção para a hostess voluptuosa vestindo roupas sumárias que passava pelo grupo a todo momento e que Cecília jurava ter visto dar uma piscada para Vinícius assim que chegaram.

Algumas horas de festa e muitos drinks depois, Vinícius disse a Cecília que precisava ir ao banheiro. Caminhou com alguma dificuldade pelo salão cheio de gente, pedindo licença para o pessoal que dançava.

No momento em que empurrava com o ombro a porta sanfonada que dava acesso ao estreito corredor dos banheiros, notou que Rose vinha em sentido contrário. Apressou seu movimento e quando notou que a porta fechara, deixando-o fora do raio de visão daqueles que se encontravam no salão principal, parou em frente a Rose, abraçou-a com força e a beijou. Um beijo rápido, mas intenso.

Rose correspondeu, tanto ao abraço quanto ao beijo.

Ao abrir os olhos, no entanto, ele notou que a costumeiramente simpática e sorridente amiga parecia um tanto assustada.

Vinícius sorriu para Rose e murmurou um “depois a gente conversa”. Ela permaneceu estática, aparentemente sem saber que rumo tomar. Ele encaminhou-se para o banheiro, postou-se em frente ao mictório, pensando no que acabara de fazer. Tinha gostado. Não se arrependera, mas, como podia facilmente perceber, beijar Rose não o havia deixado excitado.

 

 

 

 

 

Bailinho

Quando soube que Renato havia terminado seu mais recente “caso”, Sofia decidiu não esperar mais tempo.

Organizou uma festinha no salão do prédio em que morava, com direito a DJ e tudo. Vestiu um tubinho preto arrasador e colocou na cabeça que “fisgaria o rapaz” de qualquer maneira. Acreditava que, aquela noite, seria o divisor de águas de sua história.

Para evitar surpresas, Sofia comentava sobre suas “intensões para com Renato” com cada uma das garotas que chegava em sua “despretensiosa” festa.

Seu erro foi não ter visto Mariana chegar. Justo a Mariana, a quem os meninos davam “Nota 10” em todos os quesitos nas brincadeirinhas machistas deles. Justo a Mariana que, assim como ela, também sonhava em “ficar” com o galã da turma.

Será que é possível mensurar o tamanho da decepção de Sofia quando avistou Renato, seu objeto de desejo, encostado numa das paredes do salão de festas aos beijos com a Mariana?

Segurando as lágrimas e com vergonha por saber que naquele momento provavelmente todos ali sabiam o que se passava com ela, abriu a porta que levava à escada de emergência e sentou-se num de seus degraus. Mesmo com a porta corta-fogo fechada, era possível Sofia ouvir nas caixas acústicas que o DJ espalhara pelo salão os versos e acordes de uma canção que ela sabia que, daquela noite em diante, jamais sairia de sua cabeça: Rock’n Roll Suicide.

Sentiu raiva de tudo. De si mesma, por ser tão ingênua; de Mariana, por estragar sua noite; e até mesmo do DJ, por colocar em sua festa uma canção do David Bowie tão fora de propósito.

Seria um presságio?

 

 

 

 

 

As rosas não falam

“Depois a gente conversa”.

A frase de Vinícius ainda reverberava na mente de Rose.

Além da frase em si, também não saia de sua cabeça o beijo que deram um pouco antes dele proferi-la.

Rose gostou de Vinícius assim que o viu, no momento em que ele entrou na sala em que trabalhava, trazido pelo “Seu” Aurélio para ser apresentado como novo funcionário da empresa. Considerá-lo um “gato”, foi ficando cada vez menos importante, na medida em que a amizade entre ambos crescia e ela percebia que uma das motivações de seu dia era encontrá-lo, ouvir seu humor irônico, ser vetor de sua sede em descobrir as coisas. Com Vinícius, Rose sentia-se mais viva e era claro para ela que Vinícius também gostava de sua companhia.

Apaixonar-se por Vinícius foi uma questão de tempo, mas Rose nunca se permitiu deixar isso claro pra ninguém. A razão para isso era o fato de Vinícius ter uma namorada, e Rose sempre fora o tipo de garota que respeitava os relacionamentos alheios, embora ela mesma já tivesse sido vítima de uma traição que não cicatrizara totalmente, se é que alguma traição se cura e cicatriza…

 

Ricardo tinha sido a grande paixão da vida de Rose. Dos caras que ela já havia ficado, foi o único com quem ela considerou que valia à pena ir além, se é que me entendem. De forma que, pouco depois desta “entrega”, descobrir que Ricardo estava saindo com outra foi muito desagradável, para dizer o mínimo. Essa experiência ruim, contudo, não afetou a auto estima de Rose, especialmente porque, muito tempo depois do término do relacionamento, Ricardo continuava procurando Rose “arrependido lhe pedindo pra voltar”.

 

Em pleno sábado à noite, sozinha em casa, com tantas possibilidades por aí; Rose pensou em Vinícius pela primeira vez com uma certa dose de decepção. Com tantas oportunidades que Vinícius tivera para beijá-la, por quê o fez naquele ambiente? Por quê prometeu-lhe uma explicação sobre o motivo para o beijo e não cumpriu? Vinícius a teria beijado porque estava bêbado? Teria se arrependido?

Imersa em dúvidas e um tanto ressentida, Rose ouviu o interfone tocar. Atendeu-o:

– Boa noite!

– Rose, tudo bem? É o Ricardo… Por favor não desliga. Se você não quer que eu entre, venha aqui pra conversar comigo. Prometo que é a última vez que te procuro se você preferir…

Rose decidiu sair.

Ricardo estava postado em frente ao portão de sua casa, com uma imenso ramalhete nas mãos. Já havia enviado vários daqueles para Rose, mas era a primeira vez que ia em pessoa, num sábado à noite, a procura da ex.

Rose abriu o portão, abraçou o ex-namorado e aceitou o ramalhete, sem notar que naquele exato momento, um táxi passava em frente à sua casa e alguém dentro dele observava a cena “aparentemente” romântica.

– Ricardo, olha só… Obrigado pelas flores e tudo mais, mas… Eu gostei muito de você. Gostei de verdade… mas não gosto mais, você entende? Não fosse pela traição em si e a gente teria terminado por outras razões.

Ricardo, novamente, tentou de tudo. Argumentou até dizer chega. Até chorar ele chorou, sem saber que Rose odiava homem que chora e que aquilo, portanto, só tinha piorado sua situação.

Rose despediu-se, entrou em casa, colocou as flores num vaso com água.

Havia bastante tempo que não se sentia tão triste. Quando percebeu que a solidão tentava envolvê-la, procurou seu quarto pra tentar dormir.

 

 

 

 

 

Obsessão Amorosa

– Caramba Sofia! Tira esse cara da cabeça. Isso “tá” parecendo obsessão amorosa!

O comentário da melhor amiga teve o mesmo efeito de um tapa na cara.

É engraçado como, às vezes, é preciso que alguém nos diga o óbvio pra gente abrir os olhos.

Sofia matutou aquilo por dias… “obsessão amorosa”.

Até na internet ela foi pesquisar: A “obsessão amorosa” ocorre quando um pensamento ou sentimento se manifesta de forma persistente, frequente e causa sensações perturbadoras como resultado do insucesso em conquistar seu objeto de desejo.

Chegou a ver num dos blogs sobre o assunto uma foto do Gollum e seu cobiçado anel.

Estaria ela, tal qual o Smeagol, definhando interna e externamente em razão de seu comportamento obsessivo? E tudo por quê? Por causa de um sujeito que lhe dera uma cartinha mal escrita quando ainda eram crianças?

Com o tempo, Sofia tinha passado da fase de pensar em Renato durante o dia e sonhar com ele durante a noite, para uma etapa degradante de segui-lo na rua, monitorar sua página pessoal e, ultimamente, desde que ele começara o namoro com Mariana, Sofia passara a interrogar amigos comuns sobre a quantas andava o namoro entre ambos.

Sentiu vergonha de chegar a pensar em fazer algo trágico para tentar chamar a atenção dele.

Depois do “toque” que Fernanda, a BFF lhe deu, Sofia decidiu que era hora de dar um basta na situação. O Gollum dentro dela, no entanto, pediu-lhe que aquela tarde fosse uma espécie de despedida daquela situação vexatória de andar pelas ruas da cidade à espreita, observando o que Renato fazia e aonde ele ia.

Espreitava a saída do prédio onde funcionava o escritório de advocacia do pai de Renato, local em que o rapaz estagiava, quando por volta das 15h Renato saiu e se encaminhou até o Shopping. Costumava fazê-lo acompanhado de dois colegas do trabalho. Naquela tarde, no entanto, Renato saíra sozinho.

Sofia seguiu-o, como fazia com certa frequência e mal pode acreditar quando o viu entrar na cafeteria e ir direto a uma mesa onde estava sentada uma garota de cabelos loiros. A moça levantou-se quando o viu chegar e ambos deram um longo beijo na boca.

Sofia ficou meio desnorteada. A única certeza que tinha naquele instante é que aquela garota nos braços de Renato não era a Mariana.

 

 

 

 

 

Desilusão

Desde o período do “estirão”, por volta de seus 11 ou 12 anos, em que seu corpo ganhara mais curvas, Mariana passou a perceber um olhar diferente da ala masculina direcionado a ela nos lugares que frequentava ou mesmo ao caminhar pelas ruas. Começou a ouvir gracejos e cantadas de todo tipo, para desespero do “Seu” Caio, o pai ciumento.

Para minimizar o assédio no dia-a-dia, Mariana deixava, inclusive, de usar certos tipos de roupa que ela gostava em prol da tranquilidade de poder vestir-se pra sair sem ter que ouvir do pai que precisava “voltar para o quarto e trocar de roupa, senão não iria sair”.

– É triste a gente ter que conviver com este tipo de cultura, né prima? – comentava com Rose, sua prima, amiga e confidente.

– Mais triste ainda é saber que boa parte das próprias mulheres consideram que usar roupas que valorizam o corpo justificam essa abordagem invasiva por parte dos homens. Lamentável! – sentenciava Rose, mais velha e experiente que Mariana e que adorava usar roupas justas.

Mariana não era muito de ir em baladas. Ocupava seu pouco tempo livre estudando. Tinha arrumado um emprego temporário numa loja no novíssimo shopping que se instalara na cidade com o objetivo de guardar um dinheirinho pra fazer um intercâmbio na Nova Zelândia.

Ultimamente ouvia com frequência da prima que ela “era séria demais para sua idade “, e que “já era hora dela começar a beijar”.

Naquela noite Mariana, costumeiramente pudica no trajar e nos modos, permitiu-se ir a uma festinha na casa de uma colega com trajes mais sumários. Sabia que o Renato estava sem namorada e que, certamente, estaria lá no bailinho da Sofia.

Não é novidade pra você, leitor(a), que eles não só “ficaram” no tal bailinho (para desespero da anfitriã) como, até mesmo, começaram a namorar.

Mariana sabia que, ciumento como o pai era, não podia queimar cartucho. Optou por namorar escondido dos pais, especialmente por causa da fama que Renato tinha de “galinha”.

A turma toda, no entanto, sabia que um novo casal se estabelecera no pedaço. Passaram a ser presença constante nas sessões de cinema, nos barzinhos e festas. Para as meninas, em geral, Renato nunca parecera tão apaixonado e “dedicado” a uma namorada como estava com Mariana.

Escrevia poesias, dava-lhe presentes, tratava-a com carinho, fazia-lhe promessas. Até que, passado um tempo de namoro, os beijos e as carícias foram ficando mais quentes e Renato passou a dar indiretas para Mariana que era hora de darem um passo adiante.

Mariana ouvia os conselhos de Rose sobre “não se machucar”, “ouvir o que o coração mandava” e “não se esquecer do histórico do cara”.

Levando sempre em conta estas três variáveis a cada novo encontro, Mariana concluía que ainda não era o momento e respondia negativamente às tentativas do Renato, ao mesmo tempo em que o mantinha com esperança de consumar o ato.

A única certeza que Mariana tinha é que estava feliz. Sentia-se completa com sua nova realidade de “garota que namorava”.

Numa fatídica tarde, no entanto, Mariana acabara de atender uma cliente quando sua amiga Sofia entrou ofegante na loja em que trabalhava e disparou:

– Mari… Preciso te falar uma coisa, mas você tem que jurar que não vai dizer pra ninguém que fui eu quem te contou.

No entanto, antes mesmo de Mariana sinalizar ou não uma concordância, Sofia já emendou a frase:

– Acabei de ver o Renato beijando uma menina lá na Starbucks.

Mariana não conseguia acreditar naquilo. Verdade seja dita. Ela “não queria” acreditar, mas, no fundo, sempre achou que uma traição do Renato seria uma possibilidade real.

Informou à colega da loja que precisava dar uma saída e rumou em direção à cafeteria que ficava dois pisos abaixo. De longe avistou Renato segurando as mãos de uma garota enquanto a encarava com olhar apaixonado. Optou por não fazer cena. Engoliu o choro e a decepção, voltou à loja para trabalhar e compareceu à aula no cursinho que fazia à noite. Esperou pelo encontro já marcado com Renato que costumava buscá-la na saída da aula para conversar.

Mariana contou-lhe o ocorrido. Renato não negou nada. Para ela, inclusive, ficou a sensação de que havia sido proposital ele levar uma garota no shopping em que ela sabidamente trabalhava.

Renato disse que a amava, mas que “estava se sentindo preso com ela” e que a situação, no final das contas, era boa para ela que “merecia um cara melhor que ele”.

Mariana sentiu o baque. Por sorte, Rose, como sempre, estava presente para lhe dar uma força. O ombro amigo e as frases do tipo “o tempo cura tudo”, “tudo que você está passando serve como experiência” e “você vai sair desta situação mais forte e madura”, ajudavam, mas não lhe traziam o amor próprio de volta.

Mariana não parava de chorar. Ficou num estado lastimável por dias. Percebendo a profundidade da tristeza da prima, veio à cabeça de Rose a mais famosa das frases motivacionais para pessoas com corações partidos:

– Mariana, minha querida! Para curar a perda de um amor, só mesmo um outro amor – profetizou, já tendo a opção de “um outro amor” em mente para apresentar à prima.

 

 

 

 

 

A fuga

Quando Vinícius e Cecília entraram no bar, os outros casais amigos já estavam por lá.

– Pessoal, desculpem o atraso, mas a culpa não foi minha – anunciou Cecília, enquanto olhava de canto de olho para o namorado, deixando claro para o grupo de quem fora a “culpa”.

Vinícius, sem graça, cumprimentou um a um os amigos da namorada. Exibia um sorriso “pouco sincero”, desconfortável. Mais desconfortável ainda, era ter que suportar a presença do Mateus, chefe de Cecília na empresa de Marketing em que trabalhavam.

Vinícius tinha convicção, embora não tivesse provas, que Mateus, apesar de ser noivo de Suzana, uma morena lindíssima, tinha “uma queda” por Cecília.

Lembrou da conversa que tiveram algumas semanas antes:

– Imagina, Vinícius. Você “tá” de brincadeira, né? Você acha que um cara com a grana que ele tem, com carro importado, apartamento nos Jardins, ia querer casar comigo? – argumentou certa vez Cecília quando Vinícius expôs à namorada sua “impressão”, após um destes encontros em grupo em que achou que Mateus demorou-se além da conta num abraço de despedida na subalterna.

–  Quem falou em casar? Talvez ele só queira transar com você, oras – respondeu.

– Por quê? Você me acha inferior à noiva dele? – questionou nervosa, num tom que ele considerou acima da região de conforto da voz da namorada.

Vinícius voltou sua mente para o encontro, tentando ser mais participativo. O problema é que sentia-se estranho com aquela gente, embora já os tivesse encontrado em outras oportunidades.

Via de regra os assuntos deles descambavam para as impressões sobre países estrangeiros que haviam visitado, geralmente opiniões rasas, baseadas em convicções óbvias. Vinícius duvidava que qualquer um deles ali, em qualquer daqueles países que haviam visitado, tivesse caminhado pelas ruas durante a noite, entrado em bares estranhos, conversado com moradores locais. Tivesse ido a bairros periféricos ou, no mínimo, caminhado por ruas paralelas aos cartões postais manjados. Para Vinícius, portanto, nenhum deles conhecia, de fato, lugar algum. Nem mesmo a própria cidade em que moravam.

– Você só conhece um país e seu povo, realmente, se você visita a periferia das grandes cidades. – opinou sem ser convidado, recebendo de volta um olhar crítico da namorada, em sua única participação ativa na conversa.

Naquele momento Vinícius pensou em Rose. Pensou no prazer que sentia em conversar com ela, em estar com ela. Lembrou que ainda não tinha cumprido a promessa de que “depois a gente conversa” que fizera à Rose depois do beijo no corredor do banheiro.

Lembrou, ainda, de um “teste” que resolveu fazer algumas semanas antes com a namorada e a amiga, sem que elas soubessem que tratava-se de um teste, obviamente.

Emprestou-lhes seu DVD de “Alta Fidelidade” e pediu a ambas que dessem suas impressões gerais sobre o filme, tão logo o assistissem.

Rose pegou o DVD numa sexta-feira e já na segunda-feira pela manhã, ao chegar no escritório, foi correndo à mesa de Vinícius dizendo que tinha adorado o filme e parecia disposta a compartilhar com ele listas e mais listas de cinco coisas que ela gostava. Das óbvias listas de músicas para diferente ocasiões, até lista de desenhos animados preferidos de sua infância, passando pela lista dos caras que a tinham beijado melhor, o que era, claramente, uma indireta.

Cecília pegou o DVD, também numa sexta. Achou a capa pobre e disse que achava o John Cusack uma ator ruim. Devolveu o filme quase um mês depois, dizendo que “Laura deveria ter ficado com Ian porque este, apesar de ser estranho, era mais estável que Rob”.

De volta à realidade, e ainda pensando na opinião da namorada, Vinícius olhou para o relógio. Disse a Cecília que precisava ir embora, mas que ela podia ficar, se quisesse. Ela ficou sem entender nada. Ele levantou-se, despediu-se do grupo sem esboçar sorriso, nem mesmo um “sorriso não sincero”. Tinha optado por não disfarçar.

Vinícius saiu rápido do bar. Entrou num táxi que estava parado à porta. Quando o carro partiu, olhou pra trás a tempo de ver Cecília na calçada olhando em direção ao táxi.

Ele sabia que sua atitude não tinha sido lá muito madura, mas estava ficando sufocado.  Precisava respirar. Talvez não devesse ter deixado a namorada naquela situação mas, naquele momento, o que ele queria era respirar ao lado de Rose.

 

 

 

 

 

Táxi

Nunca havia se sentido tão mal em toda a sua vida e jamais imaginou que passaria por aquela situação. Deixara a pessoa com quem até pouco tempo atrás vivera momentos maravilhosos, alguém com quem descobrira o amor; numa situação embaraçosa, pra dizer o mínimo.

É verdade que ultimamente a chama entre os dois já não tinha mais a mesma intensidade. Os encontros entre eles tinham virado mais obrigação que prazer e, não foram poucas as vezes em que ele teria preferido ficar em casa ouvindo seus discos ou assistindo suas séries favoritas a ter que sair para vê-la.

As briguinhas e discussões tinham começado a virar rotina, e até mesmo as transas não tinham mais a mesma frequência e envolvimento; mas o que de fato o motivou a deixar a namorada na mão, na frente de seus amigos, foi a vontade de estar com a Rose.

O que estava feito, estava feito. Depois daria um jeito na situação. Sabia que não poderia corrigir o estrago causado mas, em nome dos bons momentos que tinha vivido com a namorada, dar-lhe-ia as devidas explicações em seu devido tempo.

Rapidamente o táxi saiu da região central da cidade e tomou o rumo do bairro da Zona Sul em que Rose morava. Já tinha visitado a amiga em sua casa num encontro agradabilíssimo regado a conversas, cerveja, roda de violão e carteado.

Tinha decidido que encontraria a “amiga” e diria tudo o que estava sentindo. Tinha certeza que ela o amava. Tentaria, portanto, ser o mais sincero possível, inclusive pontuando suas dúvidas e incertezas. Discutiria quais deveriam ser os próximos passos da relação entre eles…

A certeza de que ir ao encontro de Rose tinha sido uma decisão acertada virou arrependimento quando o táxi virou a esquina da rua em que a amiga morava e de dentro dele Vinícius pôde ver Rose em frente à sua casa abraçando calorosamente um sujeito. Vinicius, então, pediu ao motorista pra seguir em frente. Foi possível, ainda, avistar um baita buquê de rosas, ou qualquer flor deste tipo, depositado no muro baixinho em frente ao imóvel.

Em pouco menos de uma hora, Vinícius perdera a namorada e a “futura namorada”.

 

 

 

 

  

Em outra

– Oi!… Atende minhas ligações?… Sei que lhe devo uma explicação…

Ouviu a voz de Vinícius gravada na secretária eletrônica algumas vezes. Seu sentimento variou do ódio ao descaso em poucas horas. A atitude dele havia lhe causado uma vergonha imensa – Onde já se viu, me destratar daquele jeito na frente dos meus amigos – repetia pra si mesma e pra quem quisesse ouvir.

Decidiu não atender às ligações do rapaz enquanto não se sentisse preparada para lhe dar uma resposta da qual não fosse se arrepender.

Contudo, nem tudo era tristeza e pensamentos ruins na cabeça de Cecília. Desde o ocorrido entre ela e Vinícius no bar, vinha recebendo uma atenção ainda maior de Matheus, seu chefe e, agora, mais do que nunca, amigo próximo.

Ela sabia que Vinícius tinha razão em desconfiar do que Matheus sentia por ela. Ela sempre percebeu um olhar meio guloso do chefe vindo em sua direção, especialmente nos dias em que ela caprichava um pouquinho mais no visual. Não retribuía o olhar, menos pelo fato de ser “comprometida” mas, principalmente, porque gostava do lugar em que trabalhava e do salário que recebia. Tinha receio que estreitar a relação com o superior imediato pudesse lhe trazer consequências ruins com o passar do tempo.

Sabia da história da Melissa, a quem ela sucedeu na vaga de especialista em RH. Logo que Cecília começou a trabalhar na empresa, trataram de lhe deixar a par de que a moça que ela estava sucedendo havia sido demitida por terem descoberto que andava mandando mensagens anônimas para Suzana, a noiva de Matheus, contando sobre os galanteios deste com algumas mulheres e eventuais escapadas com colegas de trabalho – Tudo imaginação da cabeça dela, garantiam os interlocutores.

Tentando enganar a tristeza enquanto assistia a um episódio de How I met your mother, Cecília ouviu o toque do celular pelo qual podia identificar o chamador:

– Cecília… É o Matheus… Olha, espero que você não me entenda mal, mas tenho pensado muito em você nestes dias e… Queria saber se você quer dar uma saída pra gente conversar um pouco e…

Mesmo antes de terminar a frase, Matheus ouviu um sonoro: “É claro que sim!” como resposta à sua investida noturna.

 

 

Segunda-feira cinza

A Ciência explica porque a segunda-feira é o dia mais odiado por 99% das pessoas. As razões variam da sonolência acima da média em função da mudança de rotina provocada pelo fim-de-semana até o sempre debatido fato de boa parte das pessoas não gostar do trabalho que executa e, portanto, a segunda paga o preço por ser o dia mais distante do próximo dia de folga.

Naquela segunda, no entanto, tanto Vinícius quanto Rose tinham expressões ainda mais “pesadas” que o normal em seus semblantes. Ambos mal haviam pregado os olhos nas duas noites anteriores, uma vez que seus cérebros negavam-se a descansar.

Ela havia decidido que Vinícius não passara de um ar fresco passageiro em sua vida. Já era madura o suficiente para saber que o beijo em Vinícius havia sido uma aventura ou um ato impensado do rapaz, e que o fato de ele não ligar ou procurá-la para uma conversa mostrava que, no mínimo, ele era imaturo por não saber lidar com a situação.

Vinicius passara o domingo deitado no chão de seu quarto com seus fones de ouvido, escutando de Abba a ZZ Top. Decidira não contar a Rose que havia ido à sua casa no sábado à noite e visto o que viu. Esperaria a amiga contar-lhe sobre seu novo amor. Faria cara de surpresa quando ela o fizesse e ficaria feliz pela amiga, como os amigos devem fazer em tal situação. Quanto à situação com a ex, decidiu ligar no domingo à noite para tentar se explicar, mas ela não o atendera. Resolveu deixar uma mensagem em sua secretária eletrônica. No fundo, sabia que Cecília jamais o perdoaria.

Segundas e sextas eram os dias da semana em que Vinícius e Rose costumavam almoçar juntos. Adoravam contar um ao outro o que haviam feito e o que planejavam fazer nos finais de semana. Naquela segunda, no entanto, em que ambos haviam evitado até mesmo uma simples troca de olhares, a habitual parceria só vingou porque Lívia, pontualmente ao meio-dia, bradou em voz alta:

– Ué… Ainda não foi almoçar com o Vinícius, Rose? – no habitual tom sarcástico.

O rapaz pôde ouvir a voz estridente da ruiva mesmo trabalhando do outro lado do andar e achou deselegante não passar pela mesa da amiga a caminho dos elevadores.

Ambos haviam evitado encontrar-se no café pela manhã e aquele “bom dia” que trocaram na hora do almoço indicava algo realmente estranho no ar. Cada um por seu lado torcia para que o outro não perguntasse se algo não estava bem.

Vinicius achou estranho o fato de a amiga estar com um ar um tanto entristecido. Imaginava que a amiga estaria radiante e louca pra lhe contar algo. Seu “demoniozinho” interior pedia que jogasse alguma indireta do tipo “Freud explica porque as mulheres adoram receber flores”, mas seu lado “anjinho” estava ganhando de goleada naquela segundona cinzenta.

Conversaram sobre amenidades até que Rose não se conteve e decidiu saber as razões para aquelas impressionantes olheiras do rapaz. Indagado, Vinicius decidiu então contar à amiga apenas parte das razões para sua aflição. Decidiu contar apenas a parte que envolvia o que havia feito à sua namorada, sem mencionar que Rose havia sido a razão principal para sua fuga desabalada do bar.

– Você me conhece, não é Rose? Conhece meu jeito de ser. Você sabe que a Cecília e aquele pessoal metido a besta com quem ela convive não me agradam nem um pouco. Já suportei várias situações chatas, só que sábado, sei lá… Estava meio de saco cheio e daí a situação saiu do controle… Decidi sair sozinho… “Tipo” um protesto do proletariado, entende?

Rose sorriu pela primeira vez em vários dias. Era incrível a capacidade de Vinícius de “mexer” com ela.

– Imaginei que algo não estava bem com você, mas não sabia que era isso. A última vez que vi olheiras tão profundas em alguém foi na Mariana… Sabe a Mariana, minha prima? Já lhe falei dela? Pois é… terminou com o namorado…

– Sei sim, você já me falou dela…

Naquele instante Rose fez a conexão que mudaria o destino de muitos dos envolvidos nesta pequena e despretensiosa história.

Rose amava a prima e amava também o amigo. Amores diferentes, mas igualmente especiais. Ambos tinham uma diferença de idades que parecia ideal sob sua ótica de que os homens demoram um tanto a mais que as mulheres para amadurecerem. A prima estava triste, tivera uma péssima primeira experiência com o namoro. Vinícius estava triste. Apesar de sua idade, Cecília também tinha sido a primeira namorada dele e, pelo que Rose percebera, o namoro entre eles estava com os dias contados.

– Amanhã vou trazer uma foto da minha prima pra você conhecer – disse em tom quase maternal.

Rose sabia que, uma vez que Vinicius visse uma foto de Mariana, dificilmente iria ficar satisfeito até não conhecê-la pessoalmente. Talvez, por isso, de forma inconsciente ou não, tivesse evitado um encontro entre os dois até aquele momento.

– Beleza! – foi a resposta de Vinícius, já com um pequeno brilho nos olhos.

 

 

 

e-mail

Apesar da desconfiança antiga, não deixou de causar um certo assombro o conteúdo do e-mail que Cecília lhe enviara.

Quando abriu seu Outlook e viu o nome da “remetente”, Vinícius já sabia que boa coisa não teria alí.

No “textão”, Cecília descreveu todos os aspectos negativos do “ex-namorado”.  “Imaturo” e “nem um pouco romântico” foram alguns dos adjetivos mais simpáticos que a moça usou, mas a frase que doeu mesmo foi: “Sim, você tinha razão. O Matheus sempre gostou de mim, mas o que você não sabia é que eu sempre gostei dele”… e arrematou com o “tiro de misericórdia”: “Agora estou namorando com um homem de verdade”.

Era óbvio para ele que palavras tão duras como essas deviam-se à profunda mágoa que a ex namorada ainda sentia e, a despeito de já estar namorando com outro, era claro que ela ainda não havia engolido e superado a forma como haviam terminado.

Num primeiro momento, Vinícius sentiu o baque da notícia. Sentiu-se traído, mesmo sem ter sido. Ou será que havia sido, uma vez que agora sabia que a ex desejava outro enquanto ainda estava com ele?

Num segundo momento, no entanto, Vinícius entendeu que, para Cecília ter enviado um e-mail tão “pesado” e com o claro objetivo de atacá-lo, era porque havia no texto a seguinte mensagem “não escrita”: O tal “homem de verdade”, com quem Cecília agora namorava, ainda não havia conseguido tirar Vinícius da cabeça da moça… pelo menos não até aquele momento.

 

 

 

Foto

Quando viu a foto da garota, sua cabeça deu um nó. É incrível como o homem é um ser que valoriza o aspecto visual. De repente parece que a garota da foto era tudo que ele sempre esperou de uma mulher. Vinícius chegou a engolir a saliva ao ver a foto de Mariana, como que evitando que uma possível “baba” escorresse pelo canto da boca.

Rose, notando a “primeira impressão” que a imagem da prima provocara no rapaz, comentou, meio irônica, meio brava:

– Affe… Como homem é um bicho besta, né?

Vinícius sorriu.

– Não falei que era gata? Além de mais bonita, ela é bem mais legal que essa chata que você namorava. – despejou Rose, como que desentalando algo que guardava há tempos na garganta.

– “Tá” bom! Você me convenceu! Dá o telefone da sua prima. É Mari que ela chama, né?

– Sim. “Mari”, de Mariana.

Mariana… Vinícius “adorava” esse nome.

– Ok! Vou ligar e ver se ela está mesmo a fim de sair comigo.

Vinícius esperou o pessoal do escritório sair para o almoço e ligou para a garota.

Mariana atendeu. Simpática, voz sensual, trazia em suas poucas palavras uma certa dúvida sobre que rumo tomar, talvez reflexo do que havia passado recentemente. Talvez ela ainda não estivesse pronta para um novo “pretendente”. No entanto, aceitou o convite de Vinícius para se conhecerem.

 

 

 

 

 

  

 

Ilha dos Cães

Três anos depois…

Até que sua adaptação tinha sido melhor que o esperado.  Só não se acostumara, ainda, com as baixas temperaturas em certas épocas do ano. De resto, havia tirado tudo de letra. Já falava a nova língua com certa fluência. Havia feito novos amigos, a maioria latinos do escritório, já que os ingleses, como haviam lhe adiantado e agora podia constatar in loco, eram mais reservados e avessos ao contato, especialmente com estrangeiros.

Adorava o fish and chips, a comida típica local, embora já tivesse conseguido ampliar bastante o cardápio com compras no ASDA que ficava a cerca de 800 metros da casa onde morava no número 9 da Barnsdale Avenue em Isle of Dogs, bairro próximo ao meridiano famoso. Lá, dividia o espaço com Domenick, uma jamaicana com quem simpatizara logo de cara nos primeiros dias de trabalho na agência, o que facilitou ainda mais sua adaptação e proporcionou uma economia maior, já que tinha com quem dividir o alto valor de aluguel.

Naquele final de semana iria realizar outro de seus sonhos. Junto com Domenick e mais dois colegas do trabalho iria conhecer Cambridge, andar pela famosa universidade, fazer um passeio de barco pelo Rio Cam e, de quebra, conhecer os lugares frequentados na juventude por seus ídolos Roger Waters e Syd Barrett, moradores da região nos tempos pré Pink Floyd, sua banda predileta.

Despertou no sábado pela manhã com Domenick acendendo a luz de seu quarto e gritando:

– Wake up, Rose. Let’s go to Cambridge… Uhuuuuu!!!

 

 

 

 

Disfarce

Vinícius caminhava pelo calçadão que levava a seu novo local de trabalho quando percebeu um olhar em sua direção. Virou o rosto para a região de onde tal olhar presumivelmente vinha e conseguiu identificar o rosto de Cecília no meio da multidão. Não sabia se a cumprimentava à distância, se caminhava em direção a ela ou se fazia de conta que não a vira.

Fazia bastante tempo que não encontrava a ex-namorada pessoalmente, precisamente desde o dia em que a deixara num bar e saíra correndo rumo à casa de uma amiga de quem ele acreditava estar apaixonado. Sabia, no entanto, por meio de amigos em comum, que Cecília havia se casado com Matheus quase na mesma época em que ele e Mariana se casaram.

Quando decidiu que não faria mal nenhum ir de encontro à ex e conversar alguma amenidade, Cecília sumiu na multidão.

No restante do trajeto Vinícius pôs-se a pensar o quanto sua vida havia mudado nos últimos meses. Além do casamento com Mariana ocorrido há cerca de um ano, Vinícius se preparava para tornar-se pai, o que deveria ocorrer dentro de uns sete ou oito meses, se as contas da esposa e a previsão do ginecologista não estivessem erradas; havia, também, mudado de emprego, após aceitar a proposta de uma multinacional da área em que trabalhava. Salário melhor, benefícios melhores e responsabilidades muito maiores.

Chegando ao escritório, Vinícius foi recebido com o sorriso e o abraço caloroso diário do mais novo amigo, o Glauco, um sujeito simpático e falante que sentava a seu lado e com quem almoçava quase que diariamente. Num certo sentido, Glauco substituíra Rose como sua melhor companhia no dia-a-dia.

Por falar em Rose, antes mesmo de Vinícius mudar de emprego, ela já havia decidido que era hora de assumir novos desafios. Mudara-se para a Europa sem dar muitos detalhes. Não se sabe se por coincidência ou não, mas a viagem de Rose ocorrera cerca de um mês depois da pequena reunião que marcou o noivado da prima com o amigo.

– Glauco, já lhe falei sobre a minha ex-namorada?

– Não, acho que não. Porquê? Está tendo alguma recaída? – perguntou sorrindo.

– Não, de jeito nenhum. É que tenho quase certeza que uma ex-namorada que eu não vejo há muito tempo estava me encarando no caminho pra cá e quando fui na direção dela pra conversar, ela sumiu.

– Estranho, hein?  Certeza que era ela?

– Quase cem por cento de certeza… e o pior é que fiquei com a sensação de que não é a primeira vez que isso acontece. Fiquei com a sensação que ela está meio que me seguindo…

– Credo… Você assistiu Atração Fatal, né? Essa ex é solteira? Separada?

– Não que eu saiba. Até onde sei ela continua casada com o mesmo cara com quem ela começou a namorar assim que terminamos.

– E aí? Valeu à pena vê-la? Você sentiu um certo frio na barriga e “talz”?

– Que frio na barriga porra nenhuma, isso aí é coisa de viado… – respondeu, tentando negar o inegável.

– E o tempo fez bem a ela? – perguntou o amigo inquisidor.

– Olha, Glauco, pra ser sincero foi tudo muito rápido, mas acho que ela era mais “interessante” quando nós namorávamos…

O amigo riu da palavra “interessante” que Vinícius usou pra descrever a ex. Pegou o caderno de anotações e anotou essa e outras palavras que viajaram por sua mente durante a rápida conversa.

– O que você “tá” fazendo? – indagou Vinícius.

– Meu caro… essa nossa conversinha me deu uma ideia…

– Como assim? Que ideia?

– Não te falei que eu tenho uma banda… Vou fazer uma letra… sobre essa “parada” que você me contou…

Vinícius riu.

 

 

 

 

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